Se você recebeu uma proposta para virar PJ e quer saber se CLT ou PJ vale mais a pena, a resposta curta é: na maioria dos casos, a proposta PJ só compensa se for pelo menos 30% a 40% maior que o seu salário CLT atual. Isso porque o salário registrado embute benefícios que não aparecem no contracheque — 13º, férias com 1/3, FGTS, multa rescisória e a proteção do seguro-desemprego — e o PJ passa a pagar impostos e contador por conta própria.
Neste artigo, você vai ver a conta completa com números de 2026: um CLT de R$ 10.000 comparado a uma proposta PJ de R$ 13.000, usando a tabela do INSS vigente, a nova regra do Imposto de Renda (isenção até R$ 5.000) e o Simples Nacional no Anexo III com Fator R. Spoiler: nesse cenário, o PJ tende a sair na frente — mas por menos do que parece, e só se fizer a lição de casa das provisões.
A conta certa: o salário CLT vale mais do que parece
O erro clássico de quem compara CLT e PJ é olhar apenas o salário bruto de um lado e o valor da nota fiscal do outro. O contrato CLT carrega um pacote de direitos que, somados, aumentam bastante o valor real da remuneração:
- 13º salário: um salário extra por ano (+8,33% ao mês);
- Férias + 1/3 constitucional: 30 dias remunerados com adicional de um terço (+11,11% ao mês, considerando o descanso e o terço);
- FGTS de 8%: depósito mensal feito pelo empregador, fora do seu salário;
- Multa de 40% do FGTS em caso de demissão sem justa causa, além de aviso prévio e seguro-desemprego;
- INSS patronal: a empresa recolhe, em geral, 20% ou mais sobre a folha para a sua aposentadoria — custo que não sai do seu bolso;
- Benefícios: plano de saúde, vale-refeição, vale-alimentação e outros, que podem somar centenas ou milhares de reais por mês.
Somando apenas 13º, férias com 1/3 e FGTS, o salário CLT já “vale” cerca de 1,29 vez o valor nominal. Quando você acrescenta benefícios como plano de saúde e VR, chega-se com facilidade à regra de bolso do mercado: para trocar de regime sem perder dinheiro, a proposta PJ deve ficar entre 1,3 e 1,4 vez o salário CLT — e isso antes de considerar a estabilidade e a multa rescisória. Para a empresa contratante, aliás, o custo total de um CLT (com INSS patronal e demais encargos) pode passar de 1,6 vez o salário, o que explica por que tantas empresas oferecem propostas PJ.
Ou seja: um CLT de R$ 10.000 equivale, grosso modo, a uma proposta PJ de R$ 13.000 a R$ 14.000. Proposta abaixo disso costuma ser troca de seis por meia dúzia — ou prejuízo disfarçado.
Simulação lado a lado: CLT de R$ 10.000 x proposta PJ de R$ 13.000 (números de 2026)
Vamos aos números reais de 2026, começando pelo lado CLT.
Quanto sobra no CLT de R$ 10.000
INSS (tabela progressiva 2026, teto de R$ 8.475,55):
| Faixa | Alíquota | Contribuição |
|---|---|---|
| Até R$ 1.621,00 | 7,5% | R$ 121,58 |
| R$ 1.621,01 a R$ 2.902,84 | 9% | R$ 115,37 |
| R$ 2.902,85 a R$ 4.354,27 | 12% | R$ 174,17 |
| R$ 4.354,28 a R$ 8.475,55 | 14% | R$ 576,98 |
| Total (teto) | — | R$ 988,09 |
Como R$ 10.000 supera o teto de contribuição, o desconto de INSS fica travado em R$ 988,09.
IRRF com a nova regra de 2026: a Lei da isenção zerou o imposto para quem ganha até R$ 5.000/mês e criou um redutor decrescente entre R$ 5.000,01 e R$ 7.350,00. Atenção ao detalhe que muita simulação erra: com rendimento de R$ 10.000, acima de R$ 7.350, não há redutor nenhum — vale a tabela padrão. A base de cálculo é R$ 10.000 − R$ 988,09 = R$ 9.011,91, na faixa de 27,5% com dedução de R$ 908,73:
IRRF = (R$ 9.011,91 × 27,5%) − R$ 908,73 = R$ 1.569,55
Líquido mensal CLT: R$ 10.000 − R$ 988,09 − R$ 1.569,55 = R$ 7.442,36.
Mas o pacote anual é maior: 13º líquido de ~R$ 7.442, férias com adicional líquido de ~R$ 2.417 sobre um mês normal e FGTS de R$ 10.666,67 depositados no ano (8% sobre 13,33 salários). No total, o CLT de R$ 10.000 entrega cerca de R$ 109.834 por ano, ou R$ 9.153/mês de valor efetivo — sem contar plano de saúde, VR e a multa de 40% em uma eventual demissão.
Quanto sobra no PJ de R$ 13.000
Considerando uma empresa de serviços no Simples Nacional, faturando R$ 13.000/mês (R$ 156.000/ano, primeira faixa das tabelas), a estratégia inteligente é usar o Fator R do Simples Nacional: com folha (incluindo pró-labore) igual ou superior a 28% da receita, a empresa é tributada pelo Anexo III, com alíquota de 6% nessa faixa, em vez dos 15,5% do Anexo V.
O pró-labore mínimo na prática é de 1 salário mínimo (R$ 1.621 em 2026), mas ele geraria um Fator R de apenas 12,5% — e jogaria a empresa no Anexo V. Para atingir os 28%, o pró-labore precisa ser de R$ 3.640/mês (28% de R$ 13.000). Veja a conta:
| Item | Valor mensal |
|---|---|
| Faturamento (nota fiscal) | R$ 13.000,00 |
| DAS Simples Anexo III (6%) | − R$ 780,00 |
| INSS sobre pró-labore (11% de R$ 3.640) | − R$ 400,40 |
| IRRF sobre pró-labore (isento até R$ 5.000 em 2026) | R$ 0,00 |
| Contador (contabilidade digital, ~R$ 200–400) | − R$ 300,00 |
| Líquido PJ | R$ 11.519,60 |
Repare como a nova isenção do IR ajuda o PJ: um pró-labore de R$ 3.640 não paga nenhum imposto de renda em 2026, e o restante sai como distribuição de lucros, isenta de IR para o sócio (desde que a contabilidade esteja em dia). Se a empresa ficasse no Anexo V por não cumprir o Fator R, o DAS saltaria para R$ 2.015/mês — R$ 1.235 a mais de imposto todo mês.
O placar
| CLT R$ 10.000 | PJ R$ 13.000 | |
|---|---|---|
| Líquido mensal em conta | R$ 7.442,36 | R$ 11.519,60 |
| Valor efetivo mensal (com 13º, férias e FGTS) | ~R$ 9.153 | R$ 11.519,60 (sem provisões) |
| Após o PJ provisionar 13º + férias próprios | ~R$ 9.153 | ~R$ 9.600 |
Nesse exemplo, o PJ sai na frente em cerca de R$ 2.367/mês no comparativo bruto — mas, quando ele mesmo provisiona o equivalente a férias e 13º, a vantagem cai para algo em torno de R$ 450/mês, e ainda faltam plano de saúde, previdência e a proteção contra demissão. É exatamente por isso que a régua de 1,3 a 1,4 existe: R$ 13.000 é praticamente o piso para essa troca fazer sentido financeiro.
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O que o PJ precisa provisionar (e quase ninguém conta)
Como PJ, ninguém deposita FGTS nem paga suas férias: você vira o RH de si mesmo. Para comparar de igual para igual, separe todo mês:
- Férias e 13º: o equivalente a 2/12 do seu líquido (no exemplo, ~R$ 1.920/mês) para poder parar 30 dias e ter o “salário extra” de dezembro;
- INSS: os 11% sobre o pró-labore contam para a aposentadoria, mas sobre uma base menor que a do CLT — considere complementar com previdência privada;
- Plano de saúde individual ou por adesão: costuma custar mais caro que o plano empresarial que você perde;
- Inadimplência e “banco de projetos”: cliente que atrasa ou contrato que acaba sem aviso prévio — sem seguro-desemprego para amortecer;
- Reserva de emergência maior: a recomendação usual para PJ é de 6 a 12 meses de custos, contra 3 a 6 para CLT;
- Custos fixos da empresa: contador, certificado digital (~R$ 150–250/ano) e eventuais taxas municipais.
Quem provisiona direito transforma a diferença em patrimônio. Quem gasta o líquido cheio todo mês descobre o custo da troca na primeira parada forçada.
Quando virar PJ claramente vale a pena
Em geral, a balança pende para o PJ quando:
- A proposta supera 1,4 vez o salário CLT — a partir daí a diferença cobre as provisões e ainda sobra;
- Você presta serviço para mais de um cliente ou pretende diversificar, diluindo o risco de depender de um contratante só;
- Sua atividade se encaixa no Anexo III via Fator R (ou tem alíquota efetiva baixa por outro caminho), como no exemplo acima;
- Você tem disciplina financeira para provisionar férias, 13º e aposentadoria por conta própria;
- Há espaço para crescer: como PJ, aumentar a receita não depende de promoção — e o Simples comporta até R$ 4,8 milhões/ano.
O primeiro passo é estruturar o CNPJ do jeito certo: veja o guia de como abrir um CNPJ para prestador de serviços e entenda as diferenças entre MEI, SLU e LTDA — para quem fatura R$ 13.000/mês (R$ 156.000/ano), o MEI já não é opção, pois o limite é R$ 81.000/ano; a SLU costuma ser o formato natural.
Riscos e pontos de atenção: pejotização não é brincadeira
A chamada pejotização — contratar como PJ alguém que trabalha como empregado — é uma zona cinzenta com risco real para os dois lados. A Justiça do Trabalho pode reconhecer o vínculo empregatício quando estão presentes os requisitos da relação de emprego: subordinação (cumprir ordens e horários como um funcionário), pessoalidade (só você pode prestar o serviço), habitualidade e onerosidade.
Na prática, acenda o alerta se o contrato PJ exigir exclusividade, horário fixo controlado, subordinação direta a um chefe e presença obrigatória idêntica à de um empregado. Para o contratante, o risco é um passivo trabalhista; para você, é viver como CLT sem nenhum dos direitos de CLT. Contratos bem redigidos, autonomia real na execução e, idealmente, mais de um cliente reduzem bastante esse risco.
Vale lembrar também: os números deste artigo são uma simulação com premissas específicas. Alíquotas mudam com o faturamento acumulado, o Fator R é recalculado mês a mês e cada atividade tem particularidades — cada caso deve ser analisado por um contador antes de você tomar a decisão.
Perguntas frequentes
Quanto a proposta PJ precisa ser maior que o salário CLT?
Em geral, entre 30% e 40% a mais. Um salário CLT vale cerca de 1,29 vez o valor nominal só com 13º, férias com 1/3 e FGTS; somando benefícios como plano de saúde e vale-refeição, a régua sobe para 1,3 a 1,4. Abaixo disso, a troca tende a ser neutra ou negativa.
Quanto ganha um PJ que fatura R$ 13.000 por mês em 2026?
No Simples Nacional Anexo III (com Fator R atendido), sobram cerca de R$ 11.520/mês: R$ 780 de DAS (6%), R$ 400,40 de INSS sobre o pró-labore de R$ 3.640 e ~R$ 300 de contador. Com a nova isenção do IR até R$ 5.000, o pró-labore não paga imposto de renda.
PJ paga menos imposto que CLT?
Na maioria dos casos de prestação de serviços, sim. No exemplo do artigo, o CLT de R$ 10.000 paga R$ 2.557/mês entre INSS e IRRF (cerca de 25,6% do bruto), enquanto o PJ de R$ 13.000 paga R$ 1.180/mês entre DAS e INSS (cerca de 9,1% do faturamento). Mas o PJ abre mão de FGTS, multa de 40% e seguro-desemprego.
PJ tem direito a férias e 13º salário?
Não. Férias remuneradas, 13º, FGTS e seguro-desemprego são direitos exclusivos do contrato CLT. O PJ precisa provisionar por conta própria — o equivalente a 2/12 do líquido mensal cobre férias e 13º — para não perder renda ao tirar descanso.
O que é pejotização e por que ela é arriscada?
É a contratação de um trabalhador como PJ para mascarar uma relação de emprego. Se houver subordinação, pessoalidade, habitualidade e onerosidade, a Justiça do Trabalho pode reconhecer o vínculo, gerando passivo trabalhista para a empresa. Para o profissional, o risco é trabalhar como empregado sem os direitos de empregado.
Fez as contas e a proposta PJ compensa? Então o próximo passo é abrir sua empresa do jeito certo — com o tipo societário adequado, os CNAEs corretos e o enquadramento no Anexo III desde o primeiro mês, para não pagar imposto a mais logo na largada.
Abra sua empresa grátis com a Numeos — a gente cuida da burocracia, define a estratégia do Fator R e do pró-labore e deixa você focado no que importa: faturar mais como PJ do que você ganhava como CLT.

